No dia 15 de outubro, durante a New York Watch Week, a INDIES.NYC reuniu 25 relojoeiros independentes de nove países e cerca de 700 colecionadores, jornalistas e profissionais do setor num endereço mantido em segredo no Flatiron District, em Manhattan. Foram seis horas de encontro, com fila na porta antes mesmo de abrir.
A gente esteve lá. E saiu com a sensação de que a relojoaria independente vive um dos melhores momentos da sua história recente.
Como tudo começou
A INDIES.NYC nasceu em 2024, criada pelo colecionador belga Jon Cruys. Depois de anos frequentando feiras tradicionais, ele quis algo diferente: um encontro de uma noite só, dedicado exclusivamente à relojoaria independente, onde colecionadores pudessem conversar direto com quem faz os relógios.
A ideia pegou rápido. O salão acontece duas vezes por ano em Nova York. Em 2026, a primeira edição foi em 4 de maio, logo depois da Watches and Wonders, e a segunda em 15 de outubro, durante a New York Watch Week. A entrada é gratuita, com inscrição prévia e uma lista de convidados selecionada.
Sem estande, sem vendedor
O que mais chama atenção na INDIES.NYC é o que ela não tem. Não tem estande gigante, não tem equipe de vendas, não tem vitrine trancada. O espaço é um estúdio branco com mobiliário preto e um grande mural ilustrado de Nova York coberto de relógios, da artista londrina Olivia Whitworth.
Atrás de cada mesa está o próprio relojoeiro. Você pega o relógio na mão, pergunta como foi feito, entende por que aquela ponte tem aquele acabamento. É uma conversa, não uma venda. Teve até um rap escrito e apresentado para os relojoeiros no meio da noite.
Esse formato mostra uma mudança real no mercado. Cada vez mais colecionadores querem conhecer quem está por trás da peça, e não só a marca.
O que passou pelas nossas mãos
Ondřej Berkus. Um dos nomes que mais chamaram atenção. O relojoeiro tcheco é autodidata: começou fabricando facas e aprendeu relojoaria com o livro Watchmaking, de George Daniels. Cada peça é desenvolvida individualmente, em conversa com o colecionador. Entre suas criações estão o Minion e o Black Hole, além de projetos com tourbillon e força constante. O que vimos tinha mostrador em meteorito. É um nome para acompanhar pela liberdade com que reorganiza a mecânica e experimenta materiais como titânio e aço de Damasco.
Legare. A nova marca de Wei Koh, fundador da Revolution e da The Rake, em parceria com Guillaume Têtu. O Chapter 1 AGP Inverted parte de uma ideia esquecida: um relógio de bolso que Albert-Gustave Piguet fez em 1932, aos 17 anos, com duplo balanço e diferencial. Só seis exemplares daquele relógio foram concluídos. A Legare pergunta o que teria acontecido se essa ideia tivesse continuado a evoluir.
Felipe Pikullik. Nascido em Berlim, filho de pai brasileiro, Felipe passou por Glashütte e trabalhou com nomes como Stefan Kudoke antes de abrir o próprio ateliê. Já tínhamos encontrado ele na Geneva Watch Days. Em Nova York, pudemos ver de perto o Sternenhimmel, com mostrador em aventurina que lembra um céu estrelado. O interesse dele por astronomia aparece em quase todas as peças.
Statera. O Brasil também esteve presente com a Statera, marca fundada em 2022 em Maringá, no Paraná, por dois amigos. Ver uma marca brasileira dividindo espaço com alguns dos independentes mais interessantes do mundo diz muito sobre o momento.
E no meio de tudo isso, uma curiosidade: o Vinylophone, um toca-discos totalmente mecânico, com 160 componentes e nenhuma eletrônica.
O que fica
A INDIES.NYC também olha para frente. Pela iniciativa 1% for the Next Generation, os relojoeiros participantes contribuem para a formação de novos relojoeiros. A próxima edição já tem data: 22 de abril de 2027.
Saímos de lá com uma certeza: a relojoaria independente não é mais nicho. É onde estão algumas das ideias mais interessantes do mercado, feitas por pessoas que você pode encontrar, cumprimentar e ouvir falar do próprio trabalho.
E fica a pergunta: um salão assim, sem estande e sem vendedor, funcionaria no Brasil?

