Renaud & Papi. O ateliê que construiu a relojoaria moderna
Se você pudesse rastrear a origem dos relógios mais complicados que existem hoje, de marcas completamente diferentes entre si, muitas dessas linhas iam convergir pro mesmo endereço em Le Locle, na Suíça.
A Renaud & Papi, hoje conhecida como Audemars Piguet Renaud & Papi (APRP), é o ateliê de complicações mais influente da relojoaria contemporânea. Desenvolveu o repetidor de minutos da IWC Grande Complication. Construiu o coração do primeiro Richard Mille. Produziu os primeiros calibres do relançamento da A. Lange & Söhne. Formou os relojoeiros que fundaram a Greubel Forsey, a Grönefeld e dezenas de outras marcas independentes. E continua sendo responsável por metade dos movimentos mais sofisticados da Audemars Piguet e por boa parte das complicações de marcas como Cartier, Chanel e Harry Winston.
Tudo isso começou com dois relojoeiros de bancada que queriam fazer complicações e não conseguiam convencer ninguém a comprar.
Dominique e Giulio
Dominique Renaud nasceu em 1959 em Besançon, uma das capitais históricas da relojoaria francesa. O pai era relojoeiro formado pela Escola Nacional de Cluses, a mãe vinha do Vallée de Joux e tinha trabalhado como ajustadora de espirais na Vacheron Constantin, em Genebra. Os dois se conheceram na fábrica. A relojoaria era, literalmente, assunto de família.
Dominique estudou em Besançon, trabalhou em oficinas de pós-venda na cidade e depois foi pra Suíça, onde entrou na Audemars Piguet em 1980, aos 21 anos. Passou cinco anos na AP fazendo o trabalho que qualquer jovem relojoeiro fazia: restauração, manutenção, bancada.
Giulio Papi tinha uma trajetória diferente. Nasceu na Itália, filho de um pai que achou loucura quando o garoto de 15 anos disse que queria ser relojoeiro em plena crise do quartzo, em 1980. A indústria mecânica suíça estava desmoronando e Giulio queria entrar nela. Fez o aprendizado num modelo de aula individual, recebeu uma formação intensiva e entrou na Audemars Piguet. Quando chegou lá, descobriu que não ia trabalhar com grandes complicações imediatamente. Ficou frustrado.
A frustração aproximou os dois. Dominique e Giulio se encontraram na AP, compartilhavam a mesma paixão por complicações e o mesmo desconforto com a estrutura tradicional de uma grande manufatura. Em 1986, com Giulio aos 21 anos e Dominique aos 27, decidiram sair e fundar a própria empresa.
1986: ninguém queria comprar
O plano original era desenvolver calibres com complicações e vender pra diferentes marcas. Pra financiar esses projetos, iam produzir movimentos esqueletizados, que era uma especialidade dos dois e estava na moda naquele período. Eram rápidos, habilidosos e sabiam que tinham talento.
O problema era que ninguém queria. A crise do quartzo ainda deixava cicatrizes profundas na indústria. Relógios mecânicos complicados eram vistos como peças de museu, não como produtos comerciais. Dominique e Giulio visitaram marcas oferecendo seus serviços e ouviram não repetidamente. Até que foram à IWC.
Günter Blümlein e o minute repeater que mudou tudo
Günter Blümlein era o CEO da IWC e da Jaeger-LeCoultre na época, um dos grandes visionários da relojoaria do século XX. É o homem que relançou a A. Lange & Söhne depois da reunificação alemã. Quando Dominique e Giulio chegaram a Schaffhausen, apresentaram uma ideia que era tão simples quanto ousada: o Da Vinci da IWC já tinha o calendário perpétuo de Kurt Klaus e o cronógrafo. Só faltava um repetidor de minutos pra se qualificar como Grande Complication. Eles podiam fazer esse módulo.
Blümlein viu algo nos dois que ninguém mais tinha visto. Em abril de 1986, encomendou o desenvolvimento de um mecanismo modular de repetição de minutos que pudesse ser adaptado ao calibre existente da IWC, baseado no Valjoux 7750. O desafio técnico era real: o 7750 é um cronógrafo automático integrado, e construir um repetidor de minutos dentro da sua arquitetura pré-existente exigia uma solução completamente nova. Ninguém tinha feito isso antes.
Dominique e Giulio passaram milhares de horas no desenvolvimento. O resultado foi um módulo de repetição com 220 componentes funcionando num espaço de apenas 2,2 mm de altura. Dois gongos afinados em si bemol e mi bemol. Doze patentes registradas pela IWC no total pro relógio, caixa e pulseira. A IWC Grande Complication referência 3770 foi lançada em 1990 e permaneceu em produção por vinte anos. Dominique Renaud disse sobre Blümlein: “Ele foi o primeiro a acreditar em nós.”
O próprio Giulio Papi lembrou o começo numa entrevista: “Imagine: dois completos desconhecidos abrindo a própria empresa, armados com nada além de um sonho de construir complicações e vendê-las pra várias marcas, numa época em que quase ninguém se interessava por mecânica suíça. Fomos até a IWC porque gostávamos do que eles faziam e dissemos: ‘Ao seu Da Vinci com calendário perpétuo e cronógrafo só falta um repetidor de minutos pra ser uma Grande Complication.’ Pra nossa surpresa, fomos convidados a preencher essa lacuna imediatamente.”
O sucesso do projeto abriu mais portas. Blümlein encomendou um segundo módulo de repetição, dessa vez pra Jaeger-LeCoultre. Depois veio a produção dos primeiros calibres pra o relançamento da A. Lange & Söhne, incluindo o famoso tourbillon com fusée e corrente. Renaud & Papi tinha encontrado seu lugar.
A Audemars Piguet entra no jogo
Em 1992, a Audemars Piguet se tornou parceira minoritária da Renaud & Papi. A relação fazia sentido: os dois fundadores tinham saído da AP, conheciam a cultura da casa, e a AP precisava de capacidade de produção de complicações que sua estrutura interna não conseguia suprir na velocidade necessária.
Ao longo dos anos seguintes, a participação da AP foi crescendo. Dominique Renaud vendeu suas ações e saiu da empresa em 2000 pra uma pausa de mais de uma década. Em 2003, com a AP detendo 78% das ações, a empresa foi oficialmente renomeada Audemars Piguet Renaud & Papi, a APRP. Giulio Papi manteve 20% e continuou na direção, posição que ocupa até hoje.
A APRP funciona num modelo único na indústria. Metade da produção é destinada à Audemars Piguet, metade a clientes externos. Produz cerca de 1.200 relógios por ano com uma equipe de aproximadamente 150 relojoeiros e artesãos, cuja idade média gira em torno de 30 anos. Tem o respaldo financeiro de um grande grupo e mantém a operação de um ateliê independente.
O primeiro Richard Mille
A relação entre Giulio Papi e Richard Mille é uma das parcerias mais produtivas da relojoaria contemporânea. Os dois se conheceram nos anos 1990 e compartilhavam uma visão em comum: a indústria suíça era conservadora demais e precisava de uma ruptura.
O RM 001, apresentado nos bastidores da Baselworld em 2000, foi essa ruptura. Richard Mille queria um relógio onde se pudesse ver todas as partes do motor funcionando, como num carro de corrida com o capô aberto. Giulio e a equipe da APRP criaram um tourbillon com placa base de titânio revestida em PVD, o primeiro da história a usar esse material. Cada componente tinha que ser acabado com perfeição absoluta porque tudo ficava visível através do mostrador de safira. O movimento e a caixa foram concebidos simultaneamente, algo inédito na época.
A história de que Richard Mille jogou o protótipo no chão durante a apresentação pra provar a resistência do tourbillon é parte da lenda fundadora da marca. Apenas 17 unidades do RM 001 foram produzidas. Cada uma serviu como laboratório em escala real pros modelos que vieram depois: o RM 002, o RM 003, o RM 004. A APRP desenvolveu e produziu os mecanismos mais sofisticados do catálogo Richard Mille desde o primeiro dia, incluindo tourbillons, cronógrafos split-seconds e complicações que não existiam antes.
O ateliê que formou uma geração
Se a história da Renaud & Papi fosse só sobre movimentos e complicações, já seria impressionante. Mas existe um segundo capítulo que é tão importante quanto o primeiro: as pessoas que passaram por ali.
O projeto da IWC Grande Complication trouxe Robert Greubel pra Schaffhausen em 1987. Três anos depois, em 1990, Greubel entrou na Renaud & Papi como prototypista e foi nomeado codiretor operacional ao lado de Fabrice Deschanel. Stephen Forsey, um inglês que tinha trabalhado no departamento de restauração da Asprey em Londres, chegou a Le Locle em 1992 por indicação de Bart Grönefeld, que já estava na empresa. Greubel e Forsey trabalharam juntos na APRP durante quase uma década. Quando saíram, fundaram a CompliTime em 2001 e depois a Greubel Forsey em 2004. Hoje, a Greubel Forsey é uma das marcas independentes mais respeitadas do mundo.
Os irmãos holandeses Bart e Tim Grönefeld entraram na APRP nos anos 1990. Bart ficou responsável pela montagem, Tim pelo controle de qualidade em tourbillons e escapes. Saíram em 2008 e fundaram a Grönefeld, que produz relógios de altíssimo nível na Holanda.
Anthony de Haas chegou à APRP em 1999, vindo da IWC. Quando entregou sua carta de demissão na IWC, Blümlein o chamou ao escritório e tentou convencê-lo a ficar mostrando um protótipo do Datograph. De Haas foi mesmo assim. Depois da APRP, tornou-se diretor de desenvolvimento de produto da A. Lange & Söhne.
Andreas Strehler passou pela APRP. Peter Speake-Marin passou pela APRP. Carole Forestier-Kasapi, que depois liderou o desenvolvimento de movimentos da Cartier e hoje ocupa a mesma posição na TAG Heuer, passou pela APRP. A lista é absurda.
Giulio Papi compara a APRP a um “campo de treinamento” e diz que a empresa é desenhada pra que as pessoas possam buscar sua própria independência se esse for o caminho que desejam. É uma filosofia rara na indústria, onde a tendência é reter talento, não liberá-lo.
Dominique depois da APRP
Dominique Renaud ficou mais de uma década afastado da relojoaria, vivendo no sul da França. Em 2013, voltou à Suíça e fundou a Dominique Renaud SA com Luiggino Torrigiani, cofundador do Solar Impulse SA. O objetivo era criar um laboratório de inovação relojoeira sem limites.
O resultado é o DR01, um conceito que substitui o balanço tradicional por um ressonador de lâmina, um novo escape e uma arquitetura de movimento completamente original. Baixa amplitude, alta frequência, maior reserva de marcha e maior precisão. É pesquisa pura, financiada por um sistema de assinatura em que colecionadores “pioneiros” compram peças que funcionam como protótipos funcionais de laboratório.
Mais recentemente, Dominique colaborou com a Furlan Marri no desenvolvimento de um módulo de calendário perpétuo, conectando sua expertise de décadas a uma das marcas jovens mais interessantes do mercado.

